A Helsing, startup alemã de inteligência artificial para defesa, confirmou o fechamento de uma rodada Série E de US$1,8 bilhão, atingindo um valuation pós-money de US$18 bilhões. O aporte transforma a empresa, fundada em Munique em 2021, na maior startup privada de tecnologia de defesa da Europa (setor que engloba desde software de IA e sistemas autônomos até equipamentos e infraestrutura militar) e posiciona o continente em uma disputa direta com os Estados Unidos no campo do defense tech.
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O que é a Helsing e o que ela faz
A Helsing desenvolve software de inteligência artificial aplicado ao setor de defesa, não hardware militar convencional. O foco em software a diferencia dos grandes conglomerados europeus do setor, como Airbus, Saab e Rheinmetall, e aproxima seu modelo ao da Anduril, referência americana de defense tech que também centra sua proposta em tecnologia e dados, não em fabricação de equipamentos pesados.
A empresa é diretamente posicionada como rival europeia da Anduril, uma comparação que, considerando o ritmo de valorização da Helsing, começa a fazer sentido também em termos de capital mobilizado.
Os recursos da Série E serão utilizados para expansão das operações. Os detalhes completos sobre todos os participantes desta rodada específica não estavam integralmente disponíveis nas fontes consultadas no momento da publicação.
Uma trajetória de valorização acelerada
O histórico de captação da Helsing oferece o contexto mais relevante para entender esta rodada. A empresa saiu da fundação para um valuation de US$5,4 bilhões em pouco mais de dois anos, passando por uma rodada de aproximadamente US$227 milhões em setembro de 2023, liderada pela General Catalyst, seguida de um segundo aporte liderado também pela General Catalyst que estabeleceu a marca dos US$5,4 bilhões.
Em julho de 2024, a empresa captou €450 milhões (cerca de US$488 milhões), com valuation reportado de aproximadamente €5 bilhões. Essa rodada contou com participação da fabricante de defesa sueca Saab AB, além de Accel, Lightspeed Venture Partners, Plural, Greenoaks e Elad Gil, uma lista que mistura fundos de VC generalistas com players estratégicos do setor de defesa, sinal de que a empresa já transitava entre os dois mundos.
Agora, com a Série E, a Helsing salta de cerca de US$5,4 bilhões para US$18 bilhões de valuation, em menos de cinco anos desde a fundação.
Entre os apoiadores da empresa está Daniel Ek, cofundador do Spotify e conhecido por seu interesse declarado em fortalecer a capacidade de defesa europeia.
Defense tech europeu: de nicho controverso a tese bilionária
O movimento da Helsing acompanha uma tendência mais ampla no espaço de defense tech europeu. Outras rodadas bilionárias no setor, incluindo a da Quantum Systems, indicam uma mudança estrutural no apetite do capital de risco pelo segmento, não um evento pontual.
Por décadas, a defesa na Europa foi domínio quase exclusivo de incumbentes estatais e grandes conglomerados. O capital privado, especialmente o de risco, mantinha distância do setor, seja por questões éticas, seja por ciclos de contrato longos e complexidade regulatória. Esse quadro mudou de forma acelerada nos últimos dois anos.
O que está acontecendo é uma reclassificação do defense tech na tese de VC: de segmento controverso a prioridade de portfólio. Rodadas bilionárias deixaram de ser exceção e passam a ser padrão para os líderes do setor. O contexto geopolítico europeu (com o conflito na Ucrânia e o debate crescente sobre autonomia estratégica do continente em relação aos EUA) funciona como catalisador direto desse fluxo de capital.
O que significa ter uma Anduril europeia
A comparação com a Anduril não é casual. A startup americana, fundada por Palmer Luckey, tornou-se referência global ao demonstrar que é possível construir capacidade de defesa de alto nível fora das estruturas tradicionais da indústria, com agilidade de startup e foco em software e sistemas autônomos. Ela captou bilhões e estabeleceu contratos com o Departamento de Defesa dos EUA.
A Helsing ocupa posição análoga na Europa: uma empresa privada, nativa em IA, construída fora das estruturas dos grandes conglomerados, com capital de risco como motor de crescimento. A diferença é o contexto, já que a Europa ainda está construindo a infraestrutura regulatória e o apetite institucional para esse modelo. A rodada de US$1,8 bilhão é, também, uma aposta de que esse ambiente vai amadurecer.
Para o ecossistema global de VC, defense tech deixou de ser uma tese de borda. Com a Helsing valendo US$18 bilhões e outros players europeus seguindo trajetória similar, o setor entra em uma fase de consolidação de liderança. Os próximos 24 meses devem revelar quais empresas conseguem converter valuation em contratos governamentais reais e receita recorrente.
Esse é o teste que a Anduril já enfrenta nos EUA. E que a Helsing terá que passar na Europa.