O Reino Unido se consolidou como o país europeu que mais gera valor com spin-offs acadêmicas, mas são os compradores dos Estados Unidos que continuam levando a maior parte do retorno financeiro desses exits, saídas estratégicas que incluem vendas, fusões ou IPOs de startups, segundo novo relatório da Dealroom, plataforma europeia especializada em dados de startups. O dado expõe uma dinâmica que preocupa o ecossistema: a Europa forma o ativo, mas o ganho financeiro cruza o Atlântico.
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As spin-offs europeias, startups originadas de pesquisas em universidades ou centros de inovação, somam um valor empresarial estimado em US$473 bilhões, sendo que US$398 bilhões vêm diretamente de deeptechs e empresas de ciências da vida. Entre os nomes que nasceram em laboratórios e se tornaram referências globais estão a Darktrace, empresa britânica de cibersegurança; a BioNTech, farmacêutica alemã que desenvolveu uma das principais vacinas contra a COVID-19; e a Synthesia, startup londrina de vídeo com IA. Juntas, empresas deste perfil já criaram mais de 167 mil empregos no continente.
Mesmo com esse histórico, o valor capturado pelos exits conta outra história. Desde 2019, compradores americanos (incluindo big techs, farmacêuticas e fundos especializados em deeptech e healthtech) realizaram 129 aquisições na Europa, movimentando quase US$24 bilhões. Os compradores europeus fecharam mais negócios no total, com 167 aquisições, mas geraram apenas US$11,2 bilhões em valor. O contraste se agrava porque quase metade do financiamento dessas empresas já vem de fora do continente, especialmente dos Estados Unidos, que dominam a fase final de capitalização e o ciclo de M&A.
O cenário também reflete uma mudança na dinâmica de saídas. Os IPOs, que já foram uma via recorrente para spin-offs maduras, praticamente desapareceram desde 2021. Em compensação, as aquisições cresceram: 2024 deve fechar como o ano mais forte em valor de fusões e aquisições, impulsionado por seis exits acima de US$1 bilhão que envolveram instituições como ETH Zurich, Universidade de Oxford, EPFL e Universidade de Tübingen. O padrão é claro: a invenção acontece na Europa; a monetização, muitas vezes, nos Estados Unidos.
Para o ecossistema europeu, a consequência é estratégica. A região se tornou um “berçário” global de deeptech, mas ainda não consegue transformar maturidade científica em escala industrial ou retenção de valor. Isso alimenta uma fuga de upside, quando o ganho financeiro gerado por um ativo migra para outro mercado, em setores críticos — IA, defensetech, biotecnologia e energia — justamente em um momento em que governos tentam fortalecer autonomia tecnológica. No fim, o relatório evidencia o maior desafio da região: a Europa domina a ciência, mas os EUA ainda dominam o mercado.