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Venture builder brasileira quer replicar o modelo que criou a Moderna (e já captou R$ 25 mi)

Vesper Biotechnologies capta R$75 mi para criar startups de biotech, com modelo inspirado na Flagship Pioneering, criadora da Moderna.
Gabriel Bottós, founder da Vesper.
Gabriel Bottós, founder da Vesper. | Imagem: Divulgação.

Redação The Beatstrap

A Vesper Biotechnologies, venture builder brasileira de biotecnologia fundada em 2018 e sediada em Florianópolis, anunciou uma rodada com meta de captar R$75 milhões até o final de 2026. A empresa já levantou R$25 milhões dessa rodada, com participação de membros da família Lafer, do grupo Klabin, da Rise Ventures, fundo focado em impacto, e da ACNext Ventures, veículo de executivos da Accenture. Desde a fundação, o portfólio mobilizou mais de R$200 milhões entre capital privado e subvenção econômica, dois terços vindos de fundos privados.

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O modelo declarado da Vesper é inspirado na Flagship Pioneering, a empresa americana que criou a Moderna e fundou mais de 100 startups científicas ao longo de 25 anos.

O que é a Flagship Pioneering (não é uma aceleradora)

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Fundada em 1999 em Cambridge, Massachusetts, por Noubar Afeyan, a Flagship Pioneering opera com US$ 14 bilhões em ativos e já originou mais de 100 ventures científicas, das quais mais de 40 estão ativas, incluindo Moderna, Indigo Agriculture, Inari e Tessera Therapeutics.

O que torna o modelo distinto não é o tamanho, é a lógica. A Flagship não investe em empresas existentes, não recebe pitch de fundadores e não oferece mentorias em ciclos de 4 meses. Ela começa com hipóteses científicas: a equipe interna formula questões que o mundo ainda não sabe responder, consulta especialistas, avalia o potencial de mercado e então cria uma empresa ao redor da pergunta mais promissora. O CEO é contratado externamente depois que a tese científica está definida. Stéphane Bancel, da Moderna, é o exemplo mais conhecido, e a Flagship mantém participação relevante ao longo de todo o ciclo de desenvolvimento.

O investimento inicial é deliberadamente pequeno, até US$1 milhão para validação e US$25 milhões para construção da empresa, usando recursos próprios. Isso reduz a dependência de capital externo nos anos iniciais e aumenta a participação retida. O retorno, quando vem, leva de 7 a 10 anos. É um modelo estruturalmente incompatível com o ciclo de VC convencional de 3 a 5 anos, e que exige um perfil muito específico de investidor: family offices, UHNWIs e fundos com mandato de impacto de longo prazo.

A Vesper opera na mesma lógica. A holding fica com 30% a 35% de cada empresa do portfólio, entra antes de qualquer CNPJ existir e atua diretamente na gestão. “Não adianta chegar para um cientista, dar um curso de quatro meses em aceleradora e achar que está resolvido“, diz Gabriel Bottós, CEO e cofundador. O processo exige imersão real, e o volume de apostas é deliberadamente limitado: desde 2018, a Vesper avaliou mais de 4.500 projetos e selecionou oito.

O portfólio

Das oito empresas do portfólio, quatro atuam em saúde humana, três em agrobiotecnologia sustentável e uma em diagnósticos moleculares. A RedDot Bio, na vertical de diagnósticos, é a única com receita recorrente ativa, disputando contratos com multinacionais do setor.

Alguns destaques incluem a Aptah Bio, que tem o maior valuation do portfólio e foi a primeira startup brasileira a obter o Orphan Drug Designation do FDA americano, mecanismo que acelera o desenvolvimento de terapias para doenças raras, e projeta US$ 7 bilhões em receita anual recorrente com seu primeiro produto, com IPO no horizonte. 

Depois, a Vyro Biotherapeutics, que desenvolve vírus oncolíticos a partir do vírus Zika para tratamento de tumores do sistema nervoso central, fundada por cientistas do HUG-CELL da USP. E um terceiro destaque vai para a Symbiomics, na vertical agrícola, que desenvolveu micro-organismos capazes de reduzir em até 30% a dependência de fertilizantes químicos e aumentar entre 30% e 50% a produtividade. Já licenciou tecnologia para a Stoller, empresa da Corteva Agriscience, com os primeiros produtos previstos para chegar ao mercado em 2026.

A equipe atual da Vesper tem 100 profissionais, dos quais 75 são doutores. O portfólio acumula 17 patentes internacionais registradas diretamente nos EUA. O hub físico em Florianópolis ocupa cerca de 3.000 m² de laboratórios e escritórios, onde cientistas e gestores trabalham no mesmo ambiente, um detalhe operacional que a Flagship também pratica em Cambridge.

O problema que a Vesper tenta resolver

O Brasil tem a terceira maior produção científica da América Latina, universidades de referência e profusão de PhDs. Mas a conversão dessa ciência em empresas com escala global acontece em proporção muito abaixo do potencial. Dados do BID, no relatório “Deep tech: the new wave”, mostram que o país tinha 101 deeptechs com VC em 2023, somando US$1,9 bilhão em valor, mas 47% das deeptechs brasileiras nunca receberam nenhum investimento, público ou privado. A Revista Pesquisa FAPESP publicou em janeiro de 2026 que as deeptechs do Brasil captam menos financiamento privado do que as do Chile e da Argentina.

Não existe uma cultura de empreender entre os cientistas brasileiros, muitos nem sabem por onde começar“, diz Bottós. As farmacêuticas locais operam majoritariamente com genéricos, aguardando o vencimento de patentes internacionais para reproduzir fórmulas já testadas. O país produz pesquisa, mas quase não exporta patente.

A Vesper tenta ocupar esse espaço, o trecho entre a bancada do laboratório e o mercado global, com capital, infraestrutura, gestão e propriedade intelectual. “A gente quer preparar nosso portfólio para jogar na primeira liga. Com comprovações suficientes e testes clínicos avançados conseguimos ir atrás de grandes fundos internacionais, que são estratégicos tanto pela expertise como pelas conexões que têm“, diz o CEO.

A nova rodada vai financiar validações de campo nas empresas de agro e o início dos testes clínicos em saúde humana nos próximos dois anos. No médio prazo, a holding projeta um IPO próprio. O horizonte declarado para as primeiras saídas do portfólio é de cinco a sete anos.

O que a Vesper está apostando é simples de enunciar e difícil de executar: que o Brasil pode ser produtor de biotecnologia de ponta, não apenas importador de patentes. O modelo existe e a ciência existe. O que ainda está sendo construído é a prova de que os dois conseguem chegar juntos ao mercado.

Redação The Beatstrap

Equipe editorial responsável pela produção de notícias, análises e conteúdos sobre startups, tecnologia e negócios.

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