Quando alguém fala em ecossistema de startups em Santa Catarina, a primeira imagem que vem é Florianópolis. Talvez Joinville e Blumenau, para quem acompanha mais de perto.
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Mas existe um movimento crescendo em cidades que ninguém colocaria no mapa da inovação e que começa a mudar a lógica de como startups nascem, crescem e encontram capital no estado.
Vale Europeu, litoral centro-norte, extremo sul… São regiões com perfis completamente diferentes, mas com um padrão em comum: alguém decidiu começar, e o ecossistema foi se formando a partir disso.
Essa não é uma história isolada. Santa Catarina é o estado que mais realiza edições do Startup Weekend no Brasil e o Brasil é o país que mais realiza este evento no mundo.
Em 2023, o SW chegou a 30 municípios catarinenses com 36 edições e, em 2026, a previsão é de 39 edições.
Mais de 30 equipes organizadoras voluntárias movimentam mais de R$1 milhão em patrocínios revertidos em educação empreendedora, impactando diretamente mais de 2 mil pessoas por ano.
Esses números importam porque revelam algo que vai além de um evento: existe uma infraestrutura informal de formação empreendedora que está capilarizando inovação por Santa Catarina de um jeito que nenhum programa governamental conseguiria sozinho. É voluntário, descentralizado e orgânico (e esse é um dos fortes motivos porque isso funciona).
Vale Europeu: de um chopp informal a um ecossistema em formação
Timbó fica no coração do Vale Europeu catarinense, uma região historicamente conhecida pela indústria metalmecânica, pela cultura germânica e por cidades pequenas com forte vocação industrial. Não exatamente o cenário que você imaginaria para um ecossistema de startups, mas é aí que a história fica interessante.
Reginaldo Schollemberg é catarinense e passou 40 anos fora de Santa Catarina, por último estava morando em São Paulo. Chegou a Timbó há 3 anos e 4 meses. Já tinha vendido duas empresas de tecnologia, uma das quais operou por 18 anos e foi adquirida por um player americano. A segunda, uma distribuidora de inovação no Brasil, também foi vendida. Hoje é investidor, com cinco startups no portfólio e atuação como conselheiro em outras sete, também fazendo parte da Anjos do Brasil.
Quando chegou a Timbó, encontrou um movimento de inovação iniciante estimulado pelo centro de inovação Blumenau, e em abril de 2023, na primeira reunião com mais sete pessoas, eles fizeram o que muitos talvez não fariam: começaram um.
Ainda em 2023, ele e outros agentes locais criaram o “Conecta Chopp”, um encontro simples, sem pretensão, para reunir gente que pensava em inovação na região. Conversas, debates, trocas. Com isso, alcançaram neste primeiro momento cerca de 500 pessoas ao longo do ano, em uma cidade com pouco mais de 40 mil habitantes.
Apenas alguns anos depois, e com dinâmicas de eventos,como o “Dia Mundial da Criatividade”, “Timbó Inovadora” e o Startup Weekend, o cenário é outro. Agora, o jogo virou e ilustra um padrão que se repete em vários ecossistemas emergentes. Nos dois anos seguintes, alcançaram mais de 2.500 pessoas por ano.
Grupos importantes da cidade, como o Rotary Club, a Associação Comercial e Empresarial e a CDL, além da Câmara de Vereadores e Prefeitura, ficaram interessados e querendo entender o que estava acontecendo, que movimento era esse.
Os embaixadores de inovação, incluindo Reginaldo, passaram de “outsiders interessantes” para interlocutores do ecossistema local. Existe um ciclo clássico aqui: a iniciativa começa na informalidade, ganha tração por mérito próprio e, quando as entidades e o poder público percebe que é real, entra para apoiar.
Não é o governo que cria o movimento, é o movimento que atrai o governo. E quando isso acontece, o acesso a espaços, patrocínios e infraestrutura destrava.
Grande parte dessa facilidade de acesso tem a ver com uma característica local: a forte influência do Rotary, Associação Empresarial e dos meios de comunicação locais da cidade. Muitos membros são donos dos espaços utilizados ou atuam diretamente nas esferas de CDL, associação comercial e poder público. É uma rede que já existia e só precisava de um motivo para se mobilizar em torno de inovação.
Em cidades como Timbó, o talento, o interesse e a vontade podem até existir, mas acabam ficando invisíveis ou migrando para as grandes áreas. O início do movimento lá em 2023 e a chegada de diferentes eventos de inovação e startup funcionou como um radar e termômetro. E quando o ponto de partida é a comunidade, o engajamento vem de um lugar diferente, de uma identificação.
Atualmente, oito startups estão em andamento na região (cinco já com faturamento e duas começando a faturar). O Startup Garage, programa do Sebrae que está rodando agora, gerou 18 novas ideias de startups e deve colocar pelo menos mais seis em operação no próximo ciclo.
Uma coisa curiosa é que o perfil dos founders vai de 17 a 60 anos, uma diversidade etária que dificilmente se vê em hubs tradicionais, onde o estereótipo do founder jovem e técnico ainda domina.
Para 2026, o plano é realizar um desafio de inovação aberta, conectando startups da região a problemas reais de empresas locais. E esse é, talvez, o ponto mais revelador do estágio atual do Vale Europeu: nenhuma das oito startups em andamento resolve problemas da indústria ou da demanda local. Todas as 18 ideias do Garage seguem o mesmo padrão.
E isso não é um problema, mas sim um sintoma natural de ecossistemas em fase inicial. No começo, as pessoas constroem o que conhecem, o que as inspira, o que viram funcionar em outro lugar.
A conexão com a economia local vem depois, quando o ecossistema amadurece o suficiente para que a indústria enxergue as startups como parceiras, e não como curiosidade. O desafio de inovação aberta é exatamente essa ponte.
Timbó não está sozinha nesse movimento. Indaial e Pomerode, também cidades do Vale Europeu, começam a se conectar. Existe apoio da Blusoft-ACATE de Blumenau, Sebrae Regional Alto e Médio Vale, Centro de Inovação Blumenau / Instituto Gene e da comunidade Euro Valley, é uma junção de atores que promovem a movimentação no Vale Europeu.
Mas o esforço deliberado é por construir um hub regional sem ser satélite de ninguém. É uma distinção importante: buscar conexão com os centros maiores sem abrir mão de identidade própria.
Litoral centro-norte: quando o turismo é zona de conforto e obstáculo ao mesmo tempo
Bombinhas é uma cidade que sempre viveu do turismo, com toda a sua estrutura girando em torno da sazonalidade. Quando a temporada acaba, a cidade esvazia, o comércio desacelera e a economia entra em modo de espera até o próximo verão.
É nesse cenário que aparece Andressa Ferreira. Conectada à área do marketing, ela reside em Bombinhas e preside a Casa do Empresário (AEMB + CDL) da cidade. Mas foi ao se conectar ao mundo das startups que sua atuação na cidade ganhou outro peso. O ponto de virada tem data e endereço: um Startup Weekend em Itapema, em 2023.
Itapema foi uma das sete cidades novas no calendário catarinense do SW naquele ano, no mesmo movimento de expansão que levou o evento a Timbó. Andressa entrou como participante e saiu com uma startup. Sua equipe ficou em segundo lugar, entrou no Projeto Nascer (programa gratuito de pré-incubação em SC que transforma ideias em startups reais) e chegou em primeiro na etapa regional.
O que aconteceu com Andressa é, provavelmente, o melhor exemplo do efeito cascata que um movimento de inovação gera em cidades pequenas. É a primeira vez que alguém tem contato com uma metodologia, uma rede e uma linguagem que, naquele contexto, simplesmente não existia. E quando essa pessoa volta pra casa, volta diferente e, na maioria das vezes, volta querendo replicar.
Foi exatamente o que aconteceu. Andressa não se limitou à própria startup e decidiu levar a cultura de inovação para Bombinhas, uma cidade que nunca tinha pensado nisso. Mas não está sozinha nessa missão.
São três agentes puxando esse movimento, cada uma por uma frente diferente: Andressa pela iniciativa privada, como presidente da associação empresarial; Laurina, pela Secretaria de Turismo e Desenvolvimento Econômico, representando o poder público; e Solana Domingues, que fez toda a articulação para trazer o Startup Weekend para a cidade via Techstars.
Pela Casa do Empresário, Andressa leva pautas de inovação com palestras e capacitações. Solana articulou a vinda de um Startup Weekend focado em turismo (turistech), com apoio do Sebrae, uma aposta temática que faz sentido para a vocação econômica da região. E com a mudança da prefeitura no último ano, a atuação de Laurina na Secretaria de Turismo e Desenvolvimento Econômico abriu mais espaço do poder público para viabilizar iniciativas como essa. As três frentes se complementam.
O grupo também mantém conexão com referências regionais: a ACIT em Tijucas, através do Inova Tijucas, e o Elume em Itajaí, liderado pela Manu, que tem sido uma referência importante em inovação para a região. Aprendem com o que já funciona ali e adaptam para a realidade de Bombinhas. Esse tipo de rede entre cidades próximas é outro padrão que aparece com frequência fora dos grandes centros: nenhuma cidade pequena tem massa crítica sozinha, mas a conexão regional cria volume.
O maior desafio? Cultural. E aqui é diferente de Timbó. Em Timbó, o desafio é conectar startups à indústria local. Em Bombinhas, o desafio é anterior: convencer as pessoas de que inovação é um assunto que diz respeito a elas. Quando a economia funciona (na temporada), ninguém sente urgência de mudar. Quando não funciona (fora da temporada), falta energia para começar algo novo. É uma armadilha de zona de conforto sazonal.
A escolha de focar o SW local em turistech é estratégica justamente por isso: em vez de tentar importar um modelo genérico de inovação, parte da vocação econômica local para introduzir uma nova forma de pensar sobre o mesmo mercado.
Existe também um projeto voltado para crianças e adolescentes, levando inovação para dentro das escolas. Jovens da cidade já participaram de bancas estaduais, ganhando visibilidade. A visão é de longo prazo: preparar a geração que vai assumir o mercado para pensar diferente.
O caso de Bombinhas levanta uma pergunta que vale para qualquer cidade com economia concentrada, seja turismo, agro ou indústria de base: como você introduz inovação em um lugar onde o modelo atual “funciona bem o suficiente”?
A resposta que está se desenhando aqui é: você não tenta substituir o modelo. Você usa ele como ponto de partida. E precisa de um grupo de pessoas dispostas a dar o primeiro passo sem esperar retorno imediato — o que Andressa reforça ser praticado com uma mentalidade de “give first” (dar antes de pedir).
Sul catarinense: o que acontece quando capital e estrutura chegam antes da cultura
Se o Vale Europeu e o litoral centro-norte mostram ecossistemas nascendo do zero, o sul de Santa Catarina mostra o que acontece quando capital e estrutura institucional se somam a esse tipo de movimento. É também a região do estado com maior proximidade geográfica e cultural com Porto Alegre e o ecossistema gaúcho, uma conexão que, à medida que esses polos amadurecem, tende a se fortalecer.
A NextFit, de Criciúma, é o caso mais visível. Fundada em 2018 por Douglas Waltricke, Guilherme Waltricke e Luiz Otávio Gava, a startup de tecnologia para o mercado fitness seguiu uma trajetória que desafia o senso comum sobre onde é possível construir uma empresa de alto crescimento. Em 2021, tinha R$3 milhões de receita recorrente anual.
Em 2022, captou R$4 milhões com a Domo Invest e a Parceiro Ventures (os mesmos investidores de Gympass, Hotmart e Loggi). Em 2025, fechou uma Série A de R$50 milhões liderada pela Cloud9 Capital, com ARR acima de R$50 milhões e mais de 13 mil academias atendidas.
A trajetória importa mais que o número da rodada. O sócio da Cloud9 comentou publicamente que a NextFit construiu tudo isso “a partir de Criciúma, com um time técnico de alto desempenho“. Essa frase carrega uma mensagem que vai além do elogio: quando um fundo de São Paulo aposta R$50 milhões em uma startup do interior de SC e faz questão de mencionar de onde ela vem, está dizendo que a geografia deixou de ser variável decisiva. O que conta é produto, receita e execução.
Mas a NextFit não surgiu no vácuo. Criciúma tem a incubadora Itec.In, da Unesc, que integra a rede MIDIHUB, a mesma rede que conecta incubadoras em 11 cidades catarinenses. A presença de uma universidade com programa de incubação e a proximidade com o ecossistema estadual criaram condições mínimas de infraestrutura que ajudaram. Não é a mesma coisa que Timbó, onde a primeira infraestrutura de inovação foi um chopp.
Araranguá, pouco mais ao sul, tem um perfil diferente e talvez ainda mais revelador. A FEBA Capital é uma venture capital fundada em 2015 com sede nos Estados Unidos, mas com raízes profundamente araranguaenses. O CEO e fundador Fábio Espindula nasceu ali. E em um movimento que diz muito sobre o modelo descentralizado que está se formando em SC, abriu uma operação da holding em sua cidade natal.
A decisão não é trivial. Levar uma VC americana para uma cidade de 70 mil habitantes no extremo sul de Santa Catarina é uma aposta de convicção. E o portfólio mostra que a aposta fez sentido: 14 empresas investidas, incluindo Abrahão (antiga OiMenu), Cobre Fácil, Coalize, Consolide e Credoro, várias delas nascidas na própria região.
A venture não apenas investiu em startups locais: ao trazer a sede para Araranguá, criou um efeito gravitacional que atrai talento, gera empregos qualificados e posiciona a cidade no radar do ecossistema nacional.
Em outubro de 2024, outra peça se encaixou: a inauguração da ARATEC, incubadora de base tecnológica que opera com a metodologia MIDITEC/ACATE e conta com apoio da UFSC (que tem campus na cidade). A incubadora já abriga startups de segmentos variados como esportes, criptomoedas, psicologia, agro e engenharia.
Quando uma cidade passa a ter, ao mesmo tempo, um fundo de venture capital com portfólio relevante, uma incubadora conectada a uma rede estadual e uma universidade federal com programa de inovação, a conversa muda de “potencial” para “infraestrutura real”. Araranguá está nesse ponto.
O sul catarinense, na prática, está formando um corredor de inovação que vai de Criciúma a Araranguá. E a proximidade geográfica e cultural com Porto Alegre e o ecossistema gaúcho adiciona uma camada interessante: à medida que esses polos amadurecem, a tendência é que a conexão entre os dois estados se fortaleça, criando uma dinâmica que não existia antes de startups, capital e talento circulando entre o extremo sul de SC e o norte do RS.
O que conecta tudo isso
Os padrões estão claros: alguém começa, o Startup Weekend catalisa, o poder público vem depois, redes regionais criam volume, escolas entram cedo na conversa. A pergunta mais interessante é outra: o que está acontecendo em Santa Catarina é exceção ou tendência?
A resposta curta é que SC tem características que facilitaram esse modelo descentralizado, como uma cultura associativista forte (Rotary, CDLs e associações comerciais que funcionam de verdade), um Sebrae estadual que priorizou a capilarização do Startup Weekend, a presença da ACATE e da rede MIDIHUB conectando incubadoras pelo interior, e um histórico de cidades médias com economia própria que não dependem da capital.
Mas nenhuma dessas condições é exclusiva de Santa Catarina. O que é exclusivo (até agora) é a combinação delas com pessoas que decidiram agir. Reginaldo em Timbó, Andressa em Bombinhas, Fábio Espindula em Araranguá… Sem essas pessoas, as condições favoráveis não teriam significado algum.
A implicação prática para quem lê isso de outra cidade ou outro estado é simples: as condições ajudam, mas não são pré-requisito. O pré-requisito é alguém decidir começar, seja em um encontro informal, um Startup Weekend ou trazendo uma pauta de inovação dentro de uma associação empresarial.
Santa Catarina está construindo, sem muito barulho, um modelo descentralizado de inovação que o resto do Brasil vai querer entender em breve. Não é sobre criar “a nova Floripa” em cada cidade. É sobre cada região encontrar seu caminho, com seus recursos, seus agentes e suas particularidades.