A Endeavor Brasil publicou recentemente a pesquisa “Do Brasil para o Mundo”, realizada com 101 scale-ups e 50 unicórnios, e o dado central é revelador: 60% dos unicórnios brasileiros chegaram ao valuation de US$1 bilhão com uma tese predominantemente doméstica. Na América Latina como um todo, esse número cai para 16%.
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A leitura deste dado é que o Brasil forma empresas grandes, sim. Mas raramente forma empresas globais e o tamanho do próprio mercado pode ser o principal culpado.
A armadilha do mercado grande demais
Em países com mercado interno menor, a internacionalização acontece por necessidade, não há outra saída. No Brasil, a lógica é diferente. O mercado é grande o suficiente para sustentar crescimento relevante por anos, o que dilui qualquer senso de urgência para pensar além da fronteira.
Os dados da pesquisa confirmam isso. Apenas 17% das scale-ups expandiram motivadas pela saturação do mercado local. Somente 6% se sentiram pressionadas pela chegada de concorrentes internacionais. Os dois gatilhos clássicos de internacionalização simplesmente não aparecem com força no ecossistema brasileiro.
A Endeavor chama esse fenômeno de “opcionalidade”: o empreendedor brasileiro pode escolher quando (e se) vai internacionalizar enquanto outros países não têm esse mesmo luxo.
Os sinais de mudança
Segundo a mesma pesquisa, 71% dos empreendedores da rede Endeavor já iniciaram ou se preparam para expandir internacionalmente. Entre startups fundadas a partir de 2020, quase metade já nasce com a internacionalização no horizonte de curto ou médio prazo.
Os EUA continuam como destino prioritário para 63% das que já expandiram, seguidos pela América Latina (60%) e Europa (49%), onde Portugal e Espanha funcionam como porta de entrada. E a expansão nem sempre começa com escritório: 43% das empresas iniciaram o movimento com vendas internacionais antes de instalar qualquer estrutura física fora do país.
O que trava quando a decisão é tomada
A pesquisa identificou alguns gargalos que aparecem repetidamente nos processos de internacionalização que não deram certo.
O primeiro é executar sem a presença da liderança. Em 44% dos casos bem-sucedidos, o founder se mudou ou planejava se mudar para o mercado-alvo. Delegar a expansão sem envolvimento direto da liderança é um dos erros mais comuns.
O segundo é montar equipes sem o equilíbrio certo entre cultura da empresa e talento local. Muito de um ou do outro tende a comprometer a operação.
O terceiro é a falta de urgência estrutural. A internacionalização precisa de prioridade real dentro da empresa. Enquanto o mercado doméstico responde bem, ela sempre perde espaço para outras demandas.
João Del Valle, CEO do Ebanx, resume o problema com precisão: “Tem que estar no top 3 das prioridades e virar um pet project. Achar que vai delegar um projeto desse é uma ilusão.“
A exceção que ensina
O Ebanx é um dos poucos exemplos brasileiros de empresa genuinamente global. Em 2025, a companhia processou mais de 1,3 bilhão de transações, com 65% do lucro bruto vindo do exterior e 20% de fora da América Latina. O modelo nasceu de uma tese global desde o início: ajudar empresas internacionais a vender no Brasil, o que levou naturalmente à expansão para outros mercados.
Não é coincidência que Del Valle seja um dos mais citados quando o assunto é internacionalização no ecossistema brasileiro. O Ebanx fez o caminho que a maioria ainda está desenhando.
Maria Teresa Fornea, CEO da Endeavor Brasil, colocou o diagnóstico em perspectiva ao apresentar o estudo no South Summit 2026: “O Brasil é a décima economia do mundo, mas quando você olha para internacionalização, tamanho de empresa e inovação digital, a gente está longe desse lugar.”
A pesquisa da Endeavor não resolve esse problema, mas o nomeia com clareza e oferece um mapa para quem já decidiu que a próxima fronteira está fora do país.