Quando o Hamas atacou Israel em 7 de outubro de 2023, o impacto no ecossistema de tecnologia foi imediato. Em menos de três semanas, 70% das empresas de tecnologia israelenses já reportavam disrupções operacionais.
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Voos de investidores foram cancelados, rodadas em andamento travaram, e engenheiros foram convocados para o serviço de reserva e deixaram as operações das startups por períodos prolongados. Em uma pesquisa com empresas do setor, 49% reportaram cancelamento de investimentos e apenas 31% tinham confiança em conseguir captar capital.
Dois anos e meio depois, o resultado é contraintuitivo e mais complexo do que qualquer manchete consegue capturar. Startups israelenses captaram US$15,6 bilhões em 2025, alta de 24% em relação a 2024 e 68% acima de 2023, o ano do impacto inicial.
Isso aconteceu durante um período em que o conflito se expandiu: além da guerra em Gaza, Israel enfrentou em 2025 uma escalada militar com o Irã, com a Guerra dos Doze Dias, que chegou a paralisar partes da economia no verão. E ainda assim o capital continuou entrando.
O CEO da Startup Nation Central, Avi Hasson, descreveu 2025 não como um retorno ao normal, mas como “uma virada em direção à maturidade de alta convicção“. A frase é precisa: o que os dados mostram é menos um boom e mais uma seleção severa.
O paradoxo dos números
O volume de deals em 2025 caiu para 717 rodadas, o menor da última década. Ao mesmo tempo, a mediana por deal atingiu US$10 milhões, alta de 67% ano a ano e o maior valor desde 2019. O que significa menos empresas sendo financiadas, mas com cheques muito maiores.
O ecossistema registrou 18 mega rodadas acima de US$100 milhões, que responderam por 46% do capital total captado (ante 37% no ano anterior). Na prática, o dinheiro foi para quem já era grande enquanto que, para as early-stage, o cenário foi outro: cheques secaram, founders precisaram esticar runway e parte das empresas nascentes simplesmente não sobreviveu.
12% das empresas participantes de pesquisas do período estimaram que, se o conflito continuasse por mais um mês, poderiam fechar (número que chegou a 17% entre startups com menos de dez funcionários).
Por que o capital estrangeiro não foi embora
Cyber e IA responderam por cerca de 70% do capital total captado em 2025. A razão é que Israel construiu ao longo de décadas uma cadeia de formação de talento técnico de elite (com raízes nas unidades de inteligência das Forças de Defesa) e uma reputação de entregar inovação mesmo em contextos de alta pressão. Para investidores globais, o conflito não enfraqueceu essa tese. Em muitos casos, reforçou.
A participação de investidores estrangeiros aumentou de 61% para 69% das rodadas entre o segundo semestre de 2024 e o primeiro semestre de 2025. Fundos como a16z, Bessemer, Insight Partners e Blackstone mantiveram presença ativa. Em janeiro de 2026, o fundo americano Striker Venture Partners anunciou entrada no mercado israelense com US$165 milhões captados, destinando metade do portfólio ao país.
O custo real: onde os números não aparecem
O impacto mais profundo da guerra está em dados menos visíveis do que o total captado. Mais de 80% das empresas fundadas por israelenses optaram por se registrar nos EUA em 2025, contra 20% em 2022. O investidor Adam Fisher, da Bessemer, chamou essa tendência de “vírus” que ameaça o ecossistema local. Se as empresas se constituem fora de Israel, o país perde base fiscal, talento e densidade de ecossistema no longo prazo, independentemente do capital que entra.
A mobilização de reservistas também deixou marcas operacionais concretas. Um CEO de startup descreveu o acúmulo de mais de 4.000 dias de reserva em sua empresa desde outubro de 2023, com cerca de 20% dos funcionários convocados simultaneamente em alguns períodos. Empresas aprenderam a operar com times distribuídos, redundância geográfica e processos que resistem à ausência de pessoas-chave, não por escolha estratégica, mas por necessidade de sobrevivência.
O governo respondeu com medidas de suporte: US$450 milhões injetados em fundos de VC via novo programa Yozma 2.0, com meta de US$1 bilhão ao longo de 2024 até 2026.
O que os dados de 2026 mostram até o momento
O primeiro trimestre de 2026 indica que o padrão se mantém. Startups israelenses captaram mais de US$3 bilhões no Q1 2026 em uma alta de 34% em relação ao mesmo período de 2025. Cyber e IA continuam dominando, com rounds expressivos em empresas como Oasis Security (US$120 milhões), ScaleOps (US$130 milhões) e Wonderful (US$150 milhões em oito meses de existência).
Mas a concentração persiste: as 10% maiores rodadas do trimestre responderam por 51% do capital captado no Q1, e os segmentos de Séries B e C caíram para apenas 29% do total.
Uma pesquisa recente com startups israelenses mostrou que 71% ainda reportam que o conflito afeta seus processos de captação: 37% enfrentam atrasos, 23% relatam que investidores postergam decisões e 11% tiveram rodadas canceladas.
A trajetória das startups israelenses desde outubro de 2023 é um experimento forçado sobre o que sustenta um ecossistema sob pressão extrema. A resposta que os dados sugerem é que o talento especializado e reputação setorial protegem o capital de risco quando tudo mais vacila, mas não protegem o volume.
O dinheiro continuou entrando, o que não resistiu da mesma forma foi a base, pois menos empresas foram criadas, menos rodadas aconteceram e mais capital ficou concentrado em menos mãos.