Ontem, sentei pra ouvir — e anotar — tudo o que rolou em mais um evento que reúne startups, pitches de soluções promissoras e um painel que, dessa vez, trouxe no centro da conversa: como a IA se aplica em startups escaláveis?
Inscrição confirmada! Agora você faz parte do ritmo.
A pergunta não dita que paira em torno desse tema é: “A IA é pra hoje. Mas ela, sozinha, escala de fato o seu negócio?”
A discussão, muito bem moderada por Fábio Ferrari, diretor do programa ACATE Invest e investidor anjo, girou em torno de startups escaláveis, o papel real da inteligência artificial, até onde ela empurra o P&D (pesquisa e desenvolvimento) e onde entra a visão de longo prazo, que nenhuma API pronta faz sozinha.
Quem estava no palco? Além de Fábio, como moderador, estavam os convidados Caroline Dallacorte, head de Portfólio da ACE Ventures, e Gabriel Fernandes, diretor da Vertical Varejo na ACATE e CEO da Instivo.
O que foi debatido e as conclusões
Diante de temáticas e questionamentos trazidos pelo moderador, cada um dos convidados trouxe pontos de vista (que, no geral, se complementaram muito bem) e que, no fim, tocavam na mesma ferida: qualquer IA, por mais poderosa que pareça, não é estratégia de crescimento se não estiver amarrada num modelo de negócio claro.
Diante da discussão sobre como essa tecnologia se encaixa (ou não) num modelo de negócio escalável de verdade, algumas conclusões puderam ser tiradas…
Primeiro, algo que se consolidou como um fato: a IA acelera o processo de P&D (pesquisa e desenvolvimento), reduz investimento de tempo e recursos e valida MVPs mais rápido. Os agentes de IA (bem construídos) conseguem encurtar a distância da ideia à concepção de um protótipo funcional.
Mas aí vem a virada da segunda conclusão: a IA não substitui a visão de escalabilidade real. Ela valida mais rápido, sim, mas quem faz crescer é o que vem depois. Ou seja, a estratégia de negócios, time comercial e um modelo de receita sustentável.
No meio disso tudo, apareceu a frase que define uma terceira conclusão: feature sozinha não é produto. E a realidade da qual estamos diante é que, se você pensar em um produto a base de integração com o GPT, por exemplo, seis meses depois (ou até menos) o próprio modelo do ChatGPT solta uma versão que faz exatamente o que a sua solução promete e, muitas vezes, com acessos gratuitos. Ou seja, o seu futuro morre muito rápido.
Outro ponto que se repetiu: o cliente não quer mais saber como usar, ele quer falar pra solução o que ele precisa e ela que dê seu jeito de resolver. Chegamos num estágio em que as soluções de IA também estão virando tendência plug-and-play.
No painel, ficou claro também que IA não precisa ser modelo de negócio. Pode (e deve) ser auxiliadora de processos internos: otimiza tempo, reduz tarefas repetitivas, deixa a equipe enxuta e abre espaço no caixa para investir em áreas mais estratégicas.
E por conta disso também, as equipes enxutas são cada vez mais uma realidade, e a IA passa a ser um aspecto normal do dia a dia.
Inclusive, um dos questionamentos da audiência, mais tarde, foi sobre a possibilidade e viabilidade da “empresa de 1 milhão realizada por 1 pessoa”. Ao qual Fábio respondeu que acredita ser complicado e, do ponto de vista de investidor anjo, ele dificilmente apostaria em uma empresa de uma pessoa só ainda mais se for um primeiro empreendimento.
No encerramento do painel, Fábio comentou sobre sua animação com possibilidades ainda não exploradas a partir de inteligências artificiais — as que são, de fato, inovadoras. Nesses casos, a IA precisa nascer a partir de dados proprietários, para garantir um roadmap de escalabilidade real e uma diferenciação de mercado.
Esse ponto foi reforçado pela fala da Caroline, que também trouxe, no fechamento, uma pergunta prática que pouca gente faz, mas é fundamental: “Como a IA pode matar o meu negócio?”
E ela ainda exemplificou com um caso prático do aparelho invisível Invisalign: eles possuem um tipo de scanner que o cliente, em casa, consegue utilizar rapidamente para o processo de análise da arcada dentária, que então é enviado via sistema online e indica qual a evolução e próximos passos de uso dos aparelhos — e já atualizando diretamente o dentista responsável também. 100% automatizado e integrado à inteligência artificial própria para facilitar a vida de ambos cliente e dentista.
É o tipo de uso de IA que pode passar despercebido, mas mostra como ela pode existir para resolver questões práticas e de maneira bastante acessível.
Para amarrar, Gabriel completou com uma fala que eu achei deveras curiosa, mas foi bem esclarecida: “Andar devagar, sem ser lento.” É uma visão de quem enxerga o futuro e como a evolução da IA pode tanto atrapalhar quanto ajudar as startups.
Você precisa andar devagar para não desperdiçar tempo, recurso e investimento em algo que vai “morrer” em poucos meses, mas não pode ser lento a ponto de deixar que a concorrência faça, antes de você, uma inovação que sua startup tinha total capacidade de lançar primeiro.
Startups que fizeram pitch e vencedores
Após o painel, veio o momento mais esperado, a apresentação dos pitches. Dessa vez, quem esteve diante dos jurados foram:
- Multiagents: plataforma que permite ter agentes de inteligência artificial trabalhando para os times de empresas, atuando de forma autônoma, 24/7, em canais como WhatsApp, e-mail, Instagram, telefone e outros, realizando tarefas humanas com escalabilidade
- Coft: plataforma que segmenta clientes para restaurantes de delivery, identificando padrões de comportamento e acionando campanhas personalizadas via WhatsApp com poucos cliques.
- Beepay: soluções tecnológicas avançadas para autoatendimento (totens de minimercado, por exemplo), eliminando processos manuais e revolucionando a experiência de compra.
- Ga.ia: solução baseada em inteligência artificial para gerenciar ações e padrões de exigência de sustentabilidade nas empresas.
- Rauzee: software para construtoras, incorporadoras, imobiliárias, corretores de imóveis e correspondentes bancários que centraliza todas as demandas e informações de gestão.
- Libber Campers: o airbnb do motor home. Plataforma que conecta proprietários de motorhomes a viajantes para que o aluguel de motorhome seja simples e prático.
Após todas as apresentações, os jurados decidiram pelo top 3 vencedor: em 1º lugar ficou a Ga.ia, em 2º a Beepay e, em 3º, a Rauzee.
Essas, que mais chamaram atenção, não venderam só IA. Trouxeram IA aplicada a algo que resolve uma dor real, seja na forma de processos internos mais eficientes, seja na experiência do cliente, que quer ter a mínima curva de aprendizado e o máximo de resultado.
O que ficou pra mim dessa experiência é que equipes enxutas, processos bem encaixados e um uso inteligente de IA podem abrir muito espaço pra crescer, mas só quando o modelo de negócio fecha a conta.
Sobre o evento
O VI ACATE Pitch Day aconteceu na ACATE Downtown, no centro de Florianópolis no último dia 09 de julho, e é uma iniciativa da ACATE Invest — um programa da ACATE com objetivo de promover a conexão entre startups e investidores anjo, fundos de investimentos e corporações.