Burnout, ansiedade e depressão se tornaram parte do cotidiano de quem empreende. Entre jornadas longas, pressão por resultados e a constante incerteza do mercado, a linha entre produtividade e esgotamento nunca foi tão tênue.
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De acordo com um levantamento da Endeavor (2024), 94% dos founders já enfrentaram algum tipo de condição adversa de saúde mental durante a trajetória empreendedora e 37% afirmam ter sofrido episódios de burnout ao longo da carreira.
A sobrecarga emocional não afeta apenas quem cria e encabeça as startups. Heads e profissionais táticos, igualmente pressionados por metas e entregas rápidas, compõem um cenário em que o negócio avança, mas o bem-estar fica em segundo plano.
Nesse contexto (e geralmente a partir de quem já viveu as dores na própria pele) surgem iniciativas que colocam a saúde mental no centro da inovação.
E é o caso do Capee, app brasileiro que nasceu da experiência pessoal de seu fundador, Thadeu Fayad, com depressão e TDAH. A proposta é criar uma nova lógica para o trabalho e a produtividade: avançar sem se machucar.
Uma solução viável e empática
O Capee nasceu de uma dor comum, mas pouco notada e discutida no universo das startups: a dificuldade de lidar com tarefas simples quando a mente está sobrecarregada. Dificuldade que, normalmente, é atribuída ao excesso de responsabilidades e à falta de foco e raramente à ansiedade, ao estresse ou à exaustão emocional que sustentam esse ciclo.
Foi dessa lacuna que surgiu a percepção de que faltavam ferramentas realmente pensadas para quem vive esse tipo de sobrecarga. E foi a partir dessa constatação que Thadeu, fundador do app, decidiu agir.
Conviver há mais de uma década com depressão e TDAH o fez perceber que as plataformas tradicionais de produtividade e workflow não foram feitas para quem vive nesse estado.
Ao testar os diversos aplicativos existentes, encontrou o oposto do que precisava: interfaces cheias, metas rígidas e lembretes que geravam ainda mais ansiedade. A partir disso, decidiu criar uma solução voltada a quem precisa de acolhimento antes da ação.
“Todos me deixavam ainda mais ansioso e frustrado”, relembra. “Resolvi criar um que fosse feito especialmente para o que eu passava de sofrimento.”
O resultado é um aplicativo que propõe uma lógica diferente: transformar o peso das tarefas em pequenas ações possíveis, respeitando o ritmo emocional do usuário. Em vez de listas intermináveis e notificações insistentes, o app oferece leveza e empatia, um espaço digital minimalista onde produtividade e bem-estar andam juntos.
E a proposta tem chamado atenção. Em novembro, o Capee representará o Brasil no Web Summit Lisboa 2025, após ser selecionado pela organização como uma das Startups de Impacto do evento. O reconhecimento reforça o propósito da empresa e sua conexão com o ODS 3 da ONU (Saúde e Bem-Estar), meta global que busca promover saúde mental e qualidade de vida até 2030.
Um app que escuta, não cobra
Em vez de funcionar como uma lista de tarefas, o Capee convida o usuário a conversar para entender o contexto emocional antes de propor qualquer ação.
Produtividade saudável é avançar sem se machucar.
Thadeu Fayad, CEO e founder do Capee.
Nesse fluxo, o usuário não cria suas próprias tarefas, ele compartilha como está se sentindo, e a inteligência artificial, com base nesse estado e nos registros diários de emoção, gera automaticamente as microtarefas possíveis de serem executadas.
São pequenas ações que quebram a paralisia e criam uma sensação de progresso real.
Essa abordagem parte de um princípio simples, mas pouco explorado no universo da produtividade: trabalhar dentro das possibilidades individuais de cada um.
Não há lembretes, notificações insistentes ou metas que muitas vezes são inalcançáveis. O Capee limita o número de tarefas a três, para evitar sobrecarga e reduzir o sentimento de culpa por não dar conta de tudo.
E segundo Thadeu, nem sempre essa culpa vem do acúmulo de tarefas, às vezes, ela aparece antes mesmo de começar.
“Sentimos uma culpa pró-ativa”, explica. “Ela existe porque já pensamos que não iremos conseguir ou que não sabemos como começar.”
É justamente esse tipo de bloqueio que o app busca aliviar, transformando o peso das tarefas em pequenas ações possíveis, respeitando o ritmo e o estado emocional de cada pessoa.
“Produtividade saudável é avançar sem se machucar”, diz Thadeu. “No Capee, a ideia é que o usuário consiga progredir respeitando seus limites emocionais, sem pressão e sem listas intermináveis.”
Com isso, o app cria uma experiência que une tecnologia e empatia para organizar sem gerar ansiedade, priorizando o bem-estar emocional como parte fundamental da rotina e reforçando a ideia de que nossos momentos mais produtivos são aqueles em que estamos bem com nós mesmos.
O lado humano da inteligência artificial
A inteligência artificial é o que dá vida ao Capee, mas não com a lógica tradicional de eficiência. Em vez de apenas automatizar tarefas, ela foi projetada para interpretar o estado emocional de quem a utiliza, traduzindo sentimentos e objetivos em microações possíveis, de acordo com o momento e o nível de energia do usuário.
Para Thadeu, o papel da tecnologia precisa ser repensado. Vivemos, segundo ele, em uma sociedade imediatista e acelerada, onde as ferramentas digitais muitas vezes acabam criando novas pressões em vez de aliviar as existentes.
“A tecnologia deve sempre buscar melhorar a vida de todos nós e não impor mais uma barreira. Precisamos de coisas simples, de ferramentas que nos tragam conforto, que nos ajudem a fazer — não importa se mais ou menos”, afirma.
Inclusive, em uma conversa sobre o posicionamento da empresa como app de produtividade, healthtech ou mesmo edtech, o fundador brincou e disse que definitivamente não são um app de produtividade, mas que podem se encaixar sim nessas outras duas definições.
O que realmente chamou atenção, no entanto, foi seu desejo (e objetivo) de que alguém cunhe o termo “EmpathyTech”.
Afinal, a proposta vai além do desempenho ou da otimização, buscando criar uma relação mais humana entre usuário e tecnologia, onde o digital serve como suporte, não como cobrança.
“Não quero que a IA pense por mim para que eu lave mais louça; quero que ela lave mais louça para que eu pense mais”, completa o fundador, citando uma frase que ouviu e adotou como referência.
Essa filosofia guia todo o desenvolvimento do app, colocando a inteligência artificial como aliada do bem-estar, e não como um instrumento de produtividade “cega”. Um contraponto à cultura da aceleração que domina o ambiente de startups e um exemplo de como a inovação pode, de fato, se tornar uma forma de cuidado.
Quando a inovação encontra o burnout
No ambiente de startups, onde velocidade e resiliência são quase sinônimos de sucesso, falar sobre vulnerabilidade ainda é um tabu. Para Thadeu, no entanto, empreender é uma “maratona emocional”, e reconhecer os próprios limites faz parte da sustentabilidade do negócio.
Sem equilíbrio, o negócio não se sustenta.
Thadeu Fayad, CEO e founder do Capee.
“Acredito que manter a saúde mental não é luxo, mas condição de sobrevivência. Sem equilíbrio, o negócio não se sustenta”, afirma.
A reflexão se estende a todo o ecossistema, de founders a profissionais táticos. Por isso, o Capee se posiciona como um lembrete de que tecnologia também pode cuidar, ajudando líderes e equipes a encontrarem equilíbrio entre desempenho e saúde emocional, ainda que na rotina acelerada das startups.
“Produtividade saudável é o que garante continuidade e impacto verdadeiro”, diz o fundador.
Mais do que um aplicativo, o app propõe um novo olhar para a cultura de trabalho: um modelo em que empatia, ritmo e propósito substituem a lógica da pressa.
Minimalista no design e na proposta, o Capee quer ser lembrado não como um app de produtividade, mas como uma tecnologia que acolhe. Criado por quem entende o impacto real da ansiedade e da depressão no cotidiano, o aplicativo traduz em código a ideia de que é possível avançar sem se ferir no processo.
Para Thadeu, o propósito vai além da inovação. Ele acredita que é possível empreender e, ao mesmo tempo, chegar a muitas pessoas — tornando o cuidado acessível e tirando o bem-estar da lógica do privilégio.
“Não adianta ter uma solução dita inovadora se ela só estiver disponível para uma parcela pequena da população. O foco precisa estar nas pessoas, não no lucro primeiro”, afirma. “O Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a OMS. Se conseguirmos ajudar uma parte desses milhões de brasileiros a entrar em um ciclo virtuoso, já teremos cumprido nosso papel.”
A ambição é clara, mas o caminho é feito de leveza. Tornar o bem-estar acessível, derrubar o estigma da vulnerabilidade e mostrar que a inovação também pode nascer do cuidado, que podemos ser fortes, produtivos e humanos ao mesmo tempo.
No fim, o Capee representa uma nova geração de startups brasileiras que transformam dor em propósito e tecnologia em empatia, como define Thadeu: um farol que ilumina o que realmente importa.