A Lauduz, healthtech capixaba especializada em telemedicina avançada, acaba de receber um aporte de R$5 milhões do FUNSES 1, o Fundo Soberano do Estado do Espírito Santo, com gestão da Quartzo Capital. O capital vai para a ampliação da operação do Telekit (a principal tecnologia da empresa), expansão da equipe e fortalecimento da infraestrutura. Até aqui, uma captação como tantas outras no ecossistema. O que torna o caso da Lauduz interessante é como a empresa chegou até esse ponto.
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Da teleconsulta voluntária ao produto
Em março de 2020, o médico Wilson Baldin Zatt colocou no ar a Plataforma Lauduz Covid-19 em Santa Maria (RS), uma das primeiras iniciativas de telemedicina ativa contra a pandemia no país. Com mais de 300 profissionais de saúde voluntários, o projeto realizou mais de 5 mil teleconsultas gratuitas, distribuiu 900 cestas básicas e 70 mil EPIs.
A operação funcionou, mas escancarou uma limitação que qualquer médico reconhece: por vídeo, dá para conversar com o paciente, não para examiná-lo. Medir pressão, auscultar pulmão, inspecionar garganta e ouvido, tudo isso ficava de fora. Foi dessa frustração prática que nasceu o conceito por trás do Telekit.
Desenvolvido a partir de 2021, o Telekit é uma maleta portátil que reúne dispositivos médicos conectados por Bluetooth (estetoscópio digital, eletrocardiograma, otoscópio, medidores de pressão, glicemia, saturação, temperatura e bioimpedância), integrados a uma tela com câmera e internet. Na prática, transforma qualquer ponto de atendimento em um consultório remoto completo, com suporte de especialista em tempo real.
A solução já soma mais de 100 unidades em operação e ultrapassou 20 mil atendimentos nos últimos dois anos. A empresa está presente em mais de 10 estados brasileiros e negocia expansão para Portugal.
O caminho até o capital
Antes do aporte da Quartzo, a trajetória da Lauduz passou por etapas que ilustram bem o percurso de uma healthtech fora do eixo Rio-São Paulo. Foram R$200 mil em fomento do Findeslab (Desafio de Saúde Domiciliar Digital), R$100 mil do programa SEED-ES do governo estadual, acelerações pela Vibee Unimed, BRDE LABs e Hospital de Amor (Barretos), autorização de funcionamento pela Anvisa em 2022 e uma rodada anjo em 2023 com valuation de R$10 milhões. Cada passo construindo credencial para o seguinte.
O FUNSES 1, que agora investiu na Lauduz, é um dos maiores FIPs do país, com aporte total de R$250 milhões, criado a partir de recursos da exploração de petróleo e gás no Espírito Santo. A Quartzo Capital (resultado da fusão entre TM3 Capital e CTM Investimentos) gere o fundo e administra cerca de R$1,4 bilhão, com portfólio de aproximadamente 60 startups investidas.
O padrão que vale observar
Os fundadores da Lauduz são médicos. Wilson Zatt é formado pela UFSM, com pós em Medicina de Emergência pelo Albert Einstein e certificações por Stanford e Johns Hopkins. Carolina Paim Fernandes Zatt, cofundadora e diretora médica, é especialista em Medicina de Família e Comunidade.
Esse perfil importa porque há um padrão recorrente no ecossistema: quando quem empreende vem do campo de atuação e viveu a dor na prática (não apenas a pesquisou), a solução tende a ser mais precisa e o product-market fit mais rápido. O voluntariado durante a pandemia funcionou como validação involuntária, a limitação identificada no dia a dia virou tese de produto e o produto acabou atraindo capital institucional.
A Lauduz mira se tornar a maior empresa de telemedicina voltada à saúde pública do Brasil. É uma ambição grande para uma empresa em estágio inicial, mas a combinação de tecnologia proprietária com aplicação direta em problemas estruturais do SUS coloca a tese num território onde escala e impacto andam juntos.