O presidente dos EUA, Donald Trump, nomeou em março de 2026 os primeiros 13 membros do PCAST (President’s Council of Advisors on Science and Technology), o conselho que assessora a presidência dos Estados Unidos em ciência e tecnologia desde 1933. A composição desta vez, porém, é diferente de qualquer versão anterior: dos 13 nomeados, 12 são executivos de empresas de tecnologia e pelo menos 9 são bilionários, sendo apenas um destes um cientista acadêmico.
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O conselho é copresidido por David Sacks (venture capitalist e czar de IA e crypto da Casa Branca) e Michael Kratsios (diretor do Escritório de Política de Ciência e Tecnologia). O patrimônio combinado dos membros corporativos ultrapassa US$900 bilhões e os nomes de executivos escolhidos pelo presidente incluem:
- Mark Zuckerberg (Meta);
- Jensen Huang (Nvidia);
- Larry Ellison (Oracle);
- Marc Andreessen (a16z);
- Sergey Brin (Google);
- Safra Catz (Oracle);
- Michael Dell (Dell Technologies);
- Lisa Su (AMD);
- e Fred Ehrsam (Paradigm, crypto).
O único representante acadêmico é John Martinis, físico e pioneiro em computação quântica que trabalhou no Google e é professor emérito na UC Santa Barbara. Além dele, dois nomes vêm do setor de energia: Jacob DeWitte (Oklo, energia nuclear) e Bob Mumgaard (Commonwealth Fusion Systems, fusão nuclear).
Elon Musk, que apoiou ativamente a campanha de Trump e liderou o DOGE (Departamento de Eficiência Governamental), e Sam Altman, CEO da OpenAI, ficaram de fora.
O que chama a atenção é a diferença quantitativa e qualitativa da escolha para este momento. No primeiro mandato de Trump (2017-2021), o conselho tinha 13 membros, dos quais 7 eram cientistas acadêmicos e 6 vinham da indústria. No governo Biden, foram 28 membros, sendo 19 pesquisadores acadêmicos. Existe um padrão, onde desde 2001, todos os PCASTs tiveram ao menos 10 acadêmicos.
Esta é a primeira vez em que a composição é dominada quase inteiramente por CEOs de empresas que, em muitos casos, são diretamente afetadas pelas políticas que o conselho vai recomendar. Google, Meta e Nvidia doaram, cada uma, US$1 milhão para o comitê de inauguração de Trump. Andreessen contribuiu para super PACs de apoio ao presidente. Meta, Google e Huang também financiaram a construção de um novo salão de festas na Casa Branca.
O foco declarado é orientar o governo sobre “oportunidades e desafios que tecnologias emergentes apresentam à força de trabalho americana” e, com a participação primária de grandes mentes inovadoras e bem-sucedidas no ramo, a expectativa é que o governo passe a ser apoiado cada vez mais pelas ditas tecnologias. A ordem executiva que recriou o PCAST em janeiro de 2025 cita “dominância tecnológica global inquestionável” como imperativo de segurança nacional.
As primeiras recomendações são esperadas dentro de 90 dias, num momento em que o Congresso discute legislação sobre IA e o Departamento de Comércio finaliza regras de exportação de semicondutores. Com copresidentes que defendem publicamente velocidade de inovação acima de regulação cautelar, o tom das recomendações não é difícil de prever.
O conselho ainda pode receber até 11 membros adicionais (o limite é 24). Se a composição atual for indicativa da direção, a política de inovação americana para os próximos anos será moldada diretamente por quem constrói, opera e lucra com a tecnologia, não por quem “apenas” a pesquisa.
As decisões sobre regulação de IA, política de exportação de chips e padrões de governança tecnológica tomadas nesse conselho tendem a virar referência global, então os ecossistemas de startups e empresas tech fora dos EUA também podem ser impactados.