Gabriel Kreiman passou 20 anos na Harvard Medical School pesquisando como o cérebro humano armazena e recupera memórias. Em 2000, publicou um paper na Nature demonstrando que neurônios individuais disparam tanto quando uma pessoa vê uma imagem quanto quando a imagina, um marco na neurociência da memória. No ano passado, largou a cadeira de professor para fundar a Engramme, uma startup que promete usar esse conhecimento para dar a humanos o que o cérebro não consegue oferecer: memória perfeita, pesquisável e infinita.
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A empresa saiu do modo stealth (operação em sigilo) em março de 2026 e agora busca levantar cerca de US$100 milhões, com investidores discutindo valuation de até US$1 bilhão. Antes disso, havia captado US$3 milhões em pre-seed liderada pela Mayfield Fund.
O que a Engramme propõe
A startup desenvolveu o que chama de “Large Memory Models”, uma arquitetura que, segundo os fundadores, funciona da mesma forma que o cérebro codifica e recupera informações. O sistema se conecta ao “memorome” do usuário (toda a sua vida digital: e-mails, mensagens, documentos, fotos, calendários) e recupera memórias automaticamente, sem busca, sem prompts e, segundo a empresa, sem alucinações.
A arquitetura se baseia em três propriedades: armazenamento vitalício em escala de petabytes, recuperação proativa (o sistema traz informações relevantes antes que você peça) e associação contextual, conectando dados ao longo do tempo de forma semelhante ao funcionamento do hipocampo.
Kreiman, que também era associate director do MIT-Harvard Centre for Brains, Minds and Machines, fundou a empresa ao lado de Spandan Madan, PhD da Harvard. No momento, o app está em beta e uma API enterprise está em desenvolvimento. A visão é que a Engramme se torne “a camada de memória para todos os apps”.
O campo competitivo e os olhares críticos
A Engramme não está sozinha. Mem0, Rewind AI, Zep, LangMem e MemGPT já operam no espaço de memória para IA. Além disso, a Meta obteve uma patente em dezembro de 2025 para “simular” a atividade de um usuário usando LLMs treinados nos dados de postagens, inclusive após o falecimento do usuário.
O argumento da Engramme para se diferenciar é que sua abordagem é fundamentada em neurociência (como o cérebro realmente funciona), não em engenharia convencional de bancos de dados vetoriais e modelos de embedding. É uma afirmação testável, mas a empresa ainda não apresentou benchmarks independentes.
E é aqui que o olhar crítico se faz necessário. Se concretizada a US$1 bilhão de valuation, seria uma entrada agressiva para uma empresa pré-produto com apenas US$3 milhões de pre-seed e um app em beta. A pergunta que investidores precisam responder é se duas décadas de pesquisa representam vantagem competitiva ou se é apenas uma narrativa convincente (e conveniente) o suficiente para justificar o cheque.
As neolabs
A Engramme faz parte de uma classe emergente de startups chamadas “neolabs”: empresas fundadas por cientistas de ponta que saem da academia para comercializar pesquisas de décadas. Outro exemplo recente é a Periodic Labs (ex-OpenAI e DeepMind), que discute captação de centenas de milhões a um valuation de US$7 bilhões para descobertas em ciência de materiais.
O padrão é novo e vale acompanhar: pesquisadores que passaram carreiras inteiras publicando trabalhos e papers agora estão montando empresas. O que muda é que, diferente de startups tradicionais de tecnologia, o ativo principal não é código ou produto, é conhecimento científico acumulado ao longo de décadas. Se esse conhecimento se traduz em vantagem sustentável a longo prazo ou apenas em uma rodada de captação bem apresentada, só o mercado vai dizer.