A Amazon anunciou em 14 de abril a aquisição da Globalstar por US$11,57 bilhões em dinheiro e ações. O deal de US$90 por ação representa um prêmio de aproximadamente 117% sobre o preço da Globalstar no final de outubro de 2025, quando surgiram os primeiros rumores de que a empresa explorava uma venda.
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A Globalstar é mais conhecida por alimentar o Emergency SOS via satélite do iPhone e do Apple Watch, funcionalidade que permite a usuários enviar pedidos de socorro em áreas sem cobertura celular. A Apple havia investido US$1,5 bilhão na Globalstar e detinha cerca de 20% da empresa. Como parte da transação, Amazon e Apple assinaram um acordo para que o Amazon Leo (divisão de satélites da Amazon) continue operando os serviços de satélite da Apple, incluindo Emergency SOS, Find My e assistência rodoviária.
A aquisição entrega à Amazon os 24 satélites da Globalstar em órbita baixa, acordos para aquisição de mais de 50 novos satélites, espectro de radiofrequência com autorizações globais (licenças MSS) e a expertise operacional de quem já roda serviços de satélite móvel há anos. A operação é um exemplo clássico de M&A estratégico: quando o tempo é curto e o concorrente já tem 10 mil satélites em órbita, construir do zero não é opção.
O plano é usar a Globalstar para adicionar serviços direct-to-device (D2D) ao Amazon Leo, permitindo que operadoras de celular estendam voz, texto e dados a clientes que estão fora do alcance de redes terrestres. O deploy está previsto para a partir de 2028. Na prática, a Amazon quer que smartphones comuns continuem conectados mesmo em regiões sem cobertura celular, sem precisar de hardware adicional. Os clientes já anunciados do Amazon Leo incluem Delta Airlines, AT&T, Vodafone, National Broadband Network (Austrália) e NASA.
A rede atual do Amazon Leo tem cerca de 200 satélites, uma fração dos 10 mil da Starlink, que já atende mais de 9 milhões de usuários, e a meta é chegar a 3.200 satélites até 2029. Existe ainda um deadline regulatório do FCC (julho de 2026) que exige o deploy de aproximadamente 1.600 satélites, prazo para o qual a Amazon já solicitou extensão.
O concorrente que também é fornecedor
Um detalhe que ilustra a complexidade dessa disputa: a Globalstar mantém um acordo com a SpaceX para lançar satélites de reposição em foguetes Falcon 9 ainda em 2026. Ou seja, a Amazon vai depender, pelo menos temporariamente, do concorrente direto para colocar em órbita os satélites da empresa que acabou de comprar.
O presidente do FCC, Brendan Carr, sinalizou abertura ao deal, afirmando que a aquisição tem potencial para criar um concorrente real à SpaceX em serviços direct-to-cell. A transação deve ser concluída em 2027, sujeita a aprovações regulatórias e ao cumprimento de milestones de deploy pela Globalstar.
A corrida por conectividade via satélite é uma das disputas mais caras e estratégicas da tecnologia atual. A Amazon está tratando internet por satélite e direct-to-device como a próxima camada de infraestrutura essencial, com o mesmo playbook que aplicou na AWS: escala massiva, visão de longo prazo e infraestrutura como serviço.
A diferença é que, desta vez, o concorrente é a SpaceX de Elon Musk, que tem anos de vantagem, frota incomparavelmente maior e controla os próprios foguetes. A resposta da Amazon foi não tentar construir tudo do zero: foi comprar satélites, espectro, contratos e expertise operacional de uma só vez. US$11,6 bilhões para ganhar tempo num mercado onde o tempo é um dos recursos mais escassos.