Toda vez que uma tecnologia nova avança, ela abre duas portas ao mesmo tempo: uma para quem quer resolver problemas e outra para quem quer explorar brechas. Com a inteligência artificial não foi diferente. Os mesmos avanços que permitem deepfakes cada vez mais convincentes e ataques sofisticados de falsificação biométrica também são a base de sistemas capazes de detectar fraudes em frações de segundo. E foi dentro deste cenário que a Deconve construiu seu negócio.
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Fundada em 2016 a partir de pesquisas em inteligência artificial na UFSC, a startup catarinense desenvolveu soluções de biometria facial voltadas ao varejo físico. O posicionamento que o CEO Rodrigo Tessari escolheu diz muito sobre o foco da empresa: “Não vendemos reconhecimento facial. Vendemos prevenção de perdas com foco na segurança e na experiência de compra.”
A Havan como virada de jogo
Em 2021, a Deconve fechou parceria com a Havan para implementar o sistema FaceMatch em toda a rede varejista, voltado à autenticação de pagamentos com o cartão próprio da loja. O resultado, anos depois, é expressivo: apenas 5,89% das transações com o cartão da rede ainda dependem de cartão físico e senha. O restante já acontece por biometria facial, com cerca de 98% das autenticações concluídas em menos de um segundo. Em termos de prevenção de perdas, a empresa reporta redução de 17% nos furtos e economia superior a R$25 milhões para o cliente.
O sistema funciona comparando a imagem capturada no momento da compra com a foto cadastrada pelo cliente. A tecnologia também atua na prevenção de fraudes no crediário, identificando tentativas de cadastro com identidades falsas antes que o dano aconteça. Porém, em nenhum momento o sistema toma decisões automáticas. Os alertas servem de apoio à atuação humana, sem a substituírem.
Ter a Havan no portfólio mudou a trajetória da Deconve. “Crescemos muito na indicação dos clientes, muito puxado pela Havan“, afirma Tessari. É o efeito que um único grande cliente pode ter quando o produto entrega o que promete: ele vira porta de entrada para outros.
9 pessoas, faturamento dobrando, mercado em disputa
A Deconve tem hoje 9 funcionários, vem dobrando o faturamento ano a ano e projeta encerrar 2026 entre R$4 milhões e R$8 milhões em receita. Os números são pequenos em relação ao tamanho do mercado em que atua, mas o ritmo de crescimento conta outra história.
O contexto ajuda a entender a oportunidade. O varejo brasileiro registrou mais de 195 mil tentativas de fraude entre janeiro e setembro de 2025, segundo a Serasa Experian, um cenário que se agrava à medida que deepfakes e técnicas de injeção de imagens falsas ficam mais acessíveis.
O reconhecimento facial já atingiu 40% da população brasileira em 2025, segundo relatório do CESeC/DPU, e o segmento atrai players de diferentes portes: Payface, Unico e Bry também atuam na área. A Deconve, porém, aposta em um recorte específico de varejo físico e prevenção de perdas, em vez de competir de frente com plataformas de autenticação de uso mais amplo.
Num segmento que lida diretamente com dados biométricos, a abordagem regulatória é parte do produto. A Deconve adota o conceito de Privacy by Design: preferência por templates biométricos em vez de imagens brutas, prazos definidos de retenção e descarte seguro dos dados. A ideia é que a conformidade com a LGPD não seja um processo paralelo, mas uma escolha de arquitetura desde o início.
Essa trajetória mostra que uma empresa pequena, nascida dentro de uma universidade, pode construir crescimento consistente a partir de um único cliente estratégico bem atendido, usando essa âncora para expandir.