Entre 8 e 11 de junho, o Web Summit Rio 2026 trouxe ao Riocentro cerca de 40 mil participantes, 1.572 startups expositoras e, entre elas, uma delegação de 103 empresas brasileiras selecionadas pela ApexBrasil e pelo Sebrae para uma agenda estruturada de internacionalização.
Inscrição confirmada! Agora você faz parte do ritmo.
A dinâmica incluía mentorias, sessões de pitch e rodadas de negócios com cinco investidores internacionais trazidos diretamente pela Apex, provenientes de EUA, Canadá, Espanha, Alemanha e Israel. O interesse externo pelo ecossistema brasileiro existiu, mas o que fazer com ele é outra conversa.
Dave Eyerly, fundador da Crosswater Capital, veio ao evento com um objetivo declarado: identificar startups brasileiras com ambição de escalar nos Estados Unidos. “Estamos aqui para apoiar empresas brasileiras que desejam se estabelecer e expandir seus negócios nos Estados Unidos, conectando empreendedores a investidores e ajudando-os a compreender melhor o mercado americano“, afirmou.
O investidor israelense Tomer Golan, por sua vez, destacou dois segmentos de interesse prioritário: inteligência artificial e tecnologias de mercado financeiro. Ao avaliar uma empresa, ele detalhou o que observa, que é a experiência da equipe, o tamanho da oportunidade e o diferencial competitivo em relação aos concorrentes. Critérios que soam razoáveis até que o founder tenta sistematizá-los na prática.
Uma das inovações desta edição foi o formato de “pitch reverso”: investidores subiram ao palco para apresentar suas teses diretamente aos empreendedores, invertendo a lógica habitual.
O que buscam os investidores estrangeiros no Brasil
Durante o evento, Eric Acher, co-fundador e managing partner da Monashees, descreveu a trajetória do ecossistema brasileiro em três fases. A primeira foi colocar o país no mapa. A segunda, deixar de criar cópias de modelos importados para desenvolver empresas locais com padrão global. “Agora, nessa terceira onda, acreditamos que as startups brasileiras já nasçam globais“, disse durante painel.
Na avaliação de Acher, o avanço da IA chegou em um momento estratégico, depois de duas décadas de formação de talentos e amadurecimento do ecossistema. “Se essa revolução tivesse acontecido 20 anos atrás, a gente não estaria tão preparado para capturar valor“, afirmou.
Foi nesse contexto que Monashees e Google anunciaram o Gama Fund, iniciativa conjunta que prevê co-investimentos de até US$10 milhões em cinco startups brasileiras de IA, incluindo acesso antecipado a modelos do Google DeepMind e créditos em nuvem de até US$350 mil por empresa selecionada. Esse fundo faz parte do programa global AI Futures Fund do Google Labs e agora aposta no Brasil como segundo mercado (sendo o primeiro um modelo semelhante que opera na Índia em parceria com a Accel).
O perfil da delegação selecionada pela ApexBrasil também aponta para onde o interesse externo está concentrado. Das 103 startups, 40,6% eram lideradas por mulheres ou tinham controle societário feminino, e os setores representados incluíam healthtech, edtech, ESG, bioeconomia, economia circular e descarbonização, além de IA. A presença de empresas do Norte e do Nordeste foi deliberada, o que sinaliza descentralização do ecossistema em direção ao que investidores globais de impacto e climate tech já buscam.
Os gargalos que ainda existem antes do investimento global
Acher não poupou o diagnóstico sobre os gargalos. “O volume disponível é desproporcional ao potencial das empresas“, disse sobre o acesso a capital. O executivo do Google, por sua vez, foi direto sobre o que o capital estrangeiro exige antes de entrar: estabilidade institucional e segurança jurídica. Não é apenas preferência, é condição.
E aqui começa o trecho da conversa que eventos raramente levam ao palco. O interesse dos investidores internacionais existe e o Web Summit Rio 2026 comprova. Mas o caminho da prospecção ao cheque assinado ainda passa por um conjunto de exigências estruturais que a maioria das startups subestima, ou simplesmente não sabe que existe até a due diligence travar.
Fundos globais exigem auditoria independente antes de liberar rodadas Série A. Inconsistências financeiras encerram negociações que chegaram longe. A barreira não é só de idioma, é de maturidade estrutural: governança documentada, cap table limpo, compliance fiscal organizado.
Startups brasileiras com operações nos EUA, seja via LLC ou C Corp, enfrentam riscos de dupla tributação entre o Brasil e o IRS que poucos founders colocam na conta antes de estruturar a empresa. A ausência de representante legal no Brasil, exigência do DREI para sócios estrangeiros, é um obstáculo operacional que aparece tarde demais na negociação.
Há ainda um dado novo no cenário fiscal. Com a Lei 15.270/2025, em vigor desde janeiro de 2026, remessas de lucros ao exterior passaram a ter imposto de renda na fonte de 10%. Essa mudança afeta diretamente a modelagem de retorno do investidor estrangeiro e precisa estar explícita na conversa com qualquer fundo de fora, porque ele já vai perguntar.
Uma pesquisa publicada na International Business Review, em agosto de 2025, classificou as barreiras à internacionalização de startups brasileiras em três grupos: dificuldades institucionais, que incluem custos, crédito e treinamento; adequação tecnológica do produto para mercados externos; e recursos humanos, em especial domínio do inglês e competências globais. O estudo reforça o que executivos como Acher e Ireland descrevem de ângulos diferentes, que o problema não começa no pitch.
A informação está aí, quem aproveitar é que irá sair à frente
O Web Summit Rio 2026 confirma que o Brasil está na pauta de investidores internacionais, e que IA e bioeconomia encabeçam essa lista. E isso indica que o ecossistema brasileiro está virando um destino ativo de prospecção para novos investimentos.
Para o founder que lê esse movimento e pensa em captação internacional nos próximos 12 a 18 meses, saiba que o interesse existe, mas quem estiver despreparado na estrutura vai perder a conversa antes de terminar o pitch. Cap table organizado, governança documentada em inglês, modelo fiscal revisado sob a ótica do investidor estrangeiro e clareza sobre as mudanças trazidas pela Lei 15.270/2025 não são detalhes de última hora. São as primeiras perguntas que vêm depois do handshake.
O volume de capital disponível para o Brasil ainda pode ser desproporcional ao potencial, como Acher disse. Mas a distância entre ter uma boa empresa e estar pronto para receber capital internacional é onde a maioria das startups ainda está trabalhando.