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Novoto, Payloop e Olho na BET foram ao Web Summit com a mesma aposta (e ela faz sentido em 2026)

Novoto, Payloop e Olho na BET mostram uma tese emergente no ecossistema: organizar o caos que já existe em vez de criar mercado do zero.
Novoto, Payloop e Olho na BET se destacam no Web Summit Rio 2026.
Novoto, Payloop e Olho na BET se destacam no Web Summit Rio 2026.

Redação The Beatstrap

As startups que mais chamaram atenção no Web Summit Rio 2026 não estavam tentando mudar comportamentos. Estavam partindo do pressuposto de que o problema já existe, o mercado já está aquecido e o que falta é alguém disposto a organizar o caos que ficou pra trás. Esse padrão atravessou verticais completamente diferentes entre as empresas brasileiras presentes no evento, e vale a pena nomeá-lo.

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Três startups selecionadas pelos programas Alpha, Impact e Inovabra do Bradesco expressam esse movimento com clareza. Verticais distintas com uma mesma lógica de produto: identificar um mercado fragmentado, onde o comportamento já existe mas a estrutura de suporte não, e construir a camada de organização que falta.

A Novoto, por exemplo, partiu de uma percepção direta: as pessoas acumulam patrimônio ao longo da vida, mas não têm ferramentas para administrar o que já conquistaram. “Existe uma preocupação enorme em comprar, mas pouca estrutura para cuidar do que foi adquirido depois“, diz Marcelo Gontijo, CEO e fundador da empresa.

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A plataforma usa IA para organizar notas fiscais, documentos de garantia, seguros e manutenções, enviando alertas preventivos e centralizando o que hoje está espalhado em e-mails, gavetas e aplicativos de câmera. No evento, a startup lançou a versão paga do aplicativo e competiu no PITCH, a competição oficial do Web Summit.

A 87Labs chegou ao evento com a Payloop, infraestrutura de gestão de cobranças recorrentes voltada ao mercado SaaS. O produto nasceu de um gap que qualquer founder de empresa de assinatura conhece bem: os sistemas disponíveis resolvem a cobrança em si, mas pouco ajudam na gestão da jornada completa do assinante. “No Brasil, os sistemas existentes resolvem muito bem a cobrança, mas ainda oferecem poucos recursos para gestão da jornada completa do assinante. Em mercados mais avançados, esse olhar para a recorrência é muito mais amplo e estratégico“, afirma Thiago da Cruz, CEO da empresa. 

A Payloop centraliza faturamento, cobrança, renovações e recuperação de inadimplência em um único ambiente, com suporte a Pix recorrente, cartão e modelos híbridos. Está em beta, com meta de 50 mil assinaturas processadas até o fim de 2026.

Além dessas duas, a Olho na BET chegou com uma proposta que só faz sentido depois que o mercado de apostas esportivas foi regulamentado no Brasil: a primeira plataforma nacional de comparação de odds com curadoria jurídica por IA. A solução usa processamento de linguagem natural e machine learning para transformar contratos e termos de uso de operadoras em informação legível, gerando um score dinâmico de risco para cada casa de apostas. 

Construímos uma solução que o mercado não tinha, oferecendo ao usuário uma ferramenta que compara odds em tempo real e, ao mesmo tempo, traduz o juridiquês das operadoras em informação clara e acessível. Nossa missão é que nenhum brasileiro deposite um real em uma bet sem entender as regras antes“, diz Ana Lacativa, CEO e cofundadora. A empresa chegou ao evento com mais de oito acordos de afiliação firmados com operadoras licenciadas pela SPA/MF.

Por que essa tese faz sentido agora

Há uma razão clara para esse padrão aparecer com mais frequência no ecossistema brasileiro de 2026. Durante anos, as startups de maior destaque no país, como iFood, Nubank e QuintoAndar, construíram sua tese criando ou redesenhando categorias inteiras. São empresas que educaram o mercado, criaram novos comportamentos e cresceram antes de rentabilizar. Esse modelo exige capital abundante, tempo e tolerância ao burn que o ambiente atual simplesmente não oferece da mesma forma que oferecia em 2021.

No Web Summit Rio 2026, Eric Acher, co-fundador da Monashees, descreveu o momento atual como a “terceira onda” das startups brasileiras: empresas que já nascem globais, mais maduras e com teses de produto mais pragmáticas.

A primeira fase foi colocar o país no mapa. Depois, deixamos de criar copycats para desenvolver empresas locais em padrão global. Agora, nessa terceira onda, acreditamos que as startups brasileiras já nasçam globais“, afirmou durante o seu painel. As três startups do exemplo se encaixam nessa leitura, não porque sejam globais desde o dia um, mas porque partem de uma execução mais focada, em mercados que não precisam ser criados do zero.

A lógica de “organizar o que já existe” também melhora três variáveis que o investidor de 2026 acompanha de perto. O mercado já está pré-aquecido, o que elimina a etapa mais cara do ciclo, que é a educação. O custo de aquisição tende a ser menor quando o produto resolve uma dor que o usuário já reconhece e consegue nomear. E o impacto percebido é imediato: o usuário abre o app, vê seus documentos organizados, seus boletos consolidados, suas bets comparadas, e entende o valor antes de precisar ser convencido. Esse ciclo mais curto entre ativação e retenção é um “combustível” para crescimento em ambiente de capital seletivo.

O papel do timing regulatório

Há um elemento que o briefing dessas empresas raramente deixa explícito, mas que está no centro da tese: mudanças regulatórias criando mercados involuntários. A regulamentação das apostas esportivas, concluída em 2025, gerou mais de 10 milhões de apostadores ativos no Brasil e, com eles, uma demanda por transparência que nenhuma operadora tinha incentivo para suprir sozinha. A Olho na BET não precisou convencer ninguém de que o problema existia, a lei criou o mercado.

O mesmo raciocínio vale para startups de recorrência. O Pix Automático, lançado pelo Banco Central em 2025, ampliou a infraestrutura disponível para modelos de cobrança recorrente, criando uma janela para produtos como a Payloop chegarem com solução pronta antes que o mercado soubesse exatamente o que precisava. E no caso da Novoto, a reforma tributária e a expansão dos documentos fiscais eletrônicos aumentaram o volume de notas que circulam na vida do consumidor, tornando a desorganização um problema maior do que era antes.

Regulamentação não é estratégia de produto, mas quando ela cria mercado antes da startup existir, a startup que chega com produto pronto tem uma vantagem que dificilmente se replica por esforço de marketing.

O que essa geração está dizendo

Essa geração de startups não está menos ambiciosa, e sim está sendo mais precisa sobre onde colocar a aposta. Em vez de criar o problema para depois resolver, ela parte do caos já instalado e constrói a camada de organização que o mercado ainda não oferece. É uma postura mais pragmática, mais alinhada ao que o capital atual valoriza e, no fundo, mais honesta sobre o que realmente é difícil de construir: não o produto, mas a disciplina de escolher o problema certo.

Redação The Beatstrap

Equipe editorial responsável pela produção de notícias, análises e conteúdos sobre startups, tecnologia e negócios.

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